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Dom Frei Inácio João Dal Monte
VI bispo diocesano

 

“Os desígnios de Deus, porém são insondáveis…

 

Estávamos palmilhando a Paróquia de Rio Negrinho – em Visita Pastoral – com o pensamento fito em outras viagens já anteriormente determinadas e marcadas… De passagem pela sede, na casa paroquial, foi-nos trazida a correspondência que – havia dias – nos aguardava. Entre as outras, estava uma carta da excelentíssima e reverendíssima nunciatura apostólica. Ajoelhamo-nos para abrí-la – como costumamos fazer com cartas desta procedência. Nossos olhos, logo nas primeiras linhas, depararam com as palavras… ‘o santo padre, o papa, dignou-se nomear vossa excelência bispo residencial de Guaxupé’. Uma comoção profunda nos invadiu… Marejaram lágrimas em nossos olhos… O peso das responsabilidades nos atemorizou… Mas… e que fazer? Como em 1949, quando ocupados estávamos na direção da Paróquia de Santo Antônio da Platina, soara a mesma voz que nos nomeava bispo coadjutor de Joinville, respondíamos: ‘faça-se em mim segundo Tua Palavra’, assim, na presença de Jesus Eucaristia, repetíamos agora…”

 

Dom frei Inácio João Dal Monte, OFM Cap Pastoral de Saudação aos seus diocesanos, Curitiba, 1952

Primeiros anos e vocação

 

João Dal Monte nasceu na Fazenda Monte Alegre, em Ribeirão Preto (SP), no dia 28 de agosto de 1897. Seus pais foram Luiz Dal Monte e Ângela Guglielmini Dal Monte. Quando faleceu o pai, Luiz, com a idade de 3 anos, voltou com a mãe para Mussolente, na Itália. Com a morte da mãe, Ângela, foi recebido e educado em casa de tios.

Em 3 de setembro de 1908, obedecendo à voz do Senhor, entrou no seminário de Rovigo. No dia 15 de setembro de 1912, recebeu o hábito capuchinho, em Bassano, segundo narra o próprio Dom frei Inácio em sua Oitava Carta Pastoral, em março de 1962: “Bondade de Deus em nossa existência. 15 de setembro de 1912! Como é longínquo esse dia! Vamos para os 50 anos… Com 15 anos e 18 dias de existência, na paz, na tranquilidade, no sossego do convento do noviciado de Bassano da Província Monástica dos Padres Capuchinhos de Veneza; rodeado de nossos companheiros de estudo, que tinham já recebido o santo hábito, vestíamos, numa santa e profunda alegria, as sagradas lãs do ‘Poverello de Assis’. Trocávamos o nome: no Batismo o de ‘João’, com o de outro batismo, ‘Inácio’. […] Oh, as doces saudades que nos restam vivas em nossa memória do ano de noviciado!”.

Desde então, passou a ser chamado frei Inácio de Ribeirão Preto, nome que adotou até ser nomeado bispo. Em 21 de setembro de 1913, emitiu os votos temporários.

Frei Inácio estava na Itália quando iniciou a Primeira Guerra Mundial e foi obrigado a servir ao exército italiano, embora fosse brasileiro. Assim, ele narra em sua Oitava Carta Pastoral: “Por quatro anos a fio, ficamos na antecâmara do inferno e por dois anos contínuos, no meio dos sofrimentos das trincheiras, na luta entre a contínua morte, que a todo passo nos espreitava ou nos campos de concentração”.

Retornando ao convento, emitiu sua profissão perpétua no dia 8 de dezembro de 1921, em Veneza. Em 1922, inscreveu-se na faculdade jurídica do seminário patriarcal de Veneza, obtendo o diploma magna cum laude em Direito Canônico (doutorado), em 30 de julho de 1925.

 

Sacerdócio e Episcopado

 

No dia 5 de abril de 1924, foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Patriarca Pedro La Fontaine, em Veneza. Nesse tempo, preparava-se um novo grupo de missionários para o Paraná. Frei Inácio insistiu para ser enviado a essa região, mas seu pedido não foi aceito. Isso aconteceu quando um dos missionários adoeceu e, então, ele o substituiu. Foi enviado ao Brasil, juntamente com outros seis franciscanos capuchinhos. Partiram de Veneza em 13 de setembro de 1925 e, em Gênova, embarcaram no Transatlântico Duca d’Aosta, no dia 17 do mesmo mês. Chegaram em Santos (SP), em 3 de outubro, e desembarcaram em Jaguariaíva (PR), em 7 de outubro do mesmo ano. Após 20 anos de ausência, o jovem sacerdote voltava à terra querida, com o coração a arder-lhe de zelo pelas almas, sentimentos de um autêntico capuchinho e filho de São Francisco.

Exerceu o ministério presbiteral em Curitiba (PR) e em Campo Magro (PR). De 1932 a 1937, foi superior do Convento de Botiatuba (PR). De 1937 a 1938, vigário de Jaguariaíva (PR), e de 1939 a 1949, de Santo Antônio da Platina (PR). Tornou-se custódio provincial dos capuchinhos do Paraná e de Santa Catarina, durante doze anos, até 1949. Foi sempre um religioso humilde, obediente. Soube cativar a estima de todos desde a chegada ao Paraná, dentro e fora do convento.

Quando comemorava seu jubileu de prata sacerdotal, foi nomeado bispo pelo Papa Pio XII, em 15 de março de 1949, como bispo titular de Agbia e bispo coadjutor da Diocese de Joinville (SC), com direito à sucessão. Assim nos narra Dom frei Inácio: “A voz de Pio XII, de saudosa memória, nos fez trocar de hábito e nos colocou como bispo coadjutor de Joinville, sob o cajado do santo e ilustre bispo Dom Pio Freitas da Silveira, de quem conservamos sempre a lembrança do amor e zelo pela causa de Deus” (Oitava Carta Pastoral, 1962).

Foi ordenado bispo no dia 26 de maio do mesmo ano, em Santo Antônio da Platina (PR), onde era vigário. Adotou como lema episcopal Exiit qui seminat (Saiu o Semeador), iluminado pelos evangelhos sinóticos (Mt 13,3; Mc 4,3; Lc 8,5).

 

Bispo de Guaxupé

 

Depois de três anos de proveitoso apostolado auxiliando Dom Pio de Freitas, em Joinville (SC), foi nomeado bispo residencial da Diocese de Guaxupé, no dia 21 de maio de 1952. Também narra em sua Oitava Carta Pastoral: “Finalmente a mesma voz nos colocou nesta diocese a apascentar estes bons filhos e a cuidar da porção mais escolhida, sacerdotes e seminaristas”. No domingo, 7 de setembro do mesmo ano, tomou posse durante uma cerimônia realizada no Palácio Episcopal, perante inúmeras pessoas.

Segundo o historiador Wilson Remédio Ferraz, em 1953, Dom Inácio iniciou o movimento para a implantação do orfanato “Casa da Criança”, que ele próprio comenta: “não será preciso dizer que os guaxupeanos estão convocados para levar avante uma das mais nobres campanhas para um dos mais dignificantes fins, a formação, amparo e educação das órfãs”. Ele ainda dizia: “nunca o problema dos menores, principalmente os órfãos, exigiu imediata solução como nos tempos atuais. Em se tratando de órfãs, principalmente, é de se dar a elas toda a atenção. Ampará-las é dar-lhes formação, através de estabelecimento próprio, resguardando-as assim dos perigos que as cercam; é tarefa das mais grandiosas. E por assim dizer uma das maiores obras de caridade”.

Celebrando na Catedral, em 29 de novembro de 1953, o bispo anunciou que a Câmara Municipal havia autorizado a doação, ao bispado, de uma área localizada na Praça dos Expedicionários. Nesse local se instalaria o Instituto Dr. José Costa Monteiro (Casa da Criança), para abrigo e educação de meninas pobres. Naquela mesma data ele ainda mencionava: “os gestos dos Poderes Municipais vêm de encontro à iniciativa, prestigiando-a com o seu apoio. Repercutiu muito bem em todas as classes sociais, dada a alta finalidade do novo instituto, qual a de formar as futuras mães de família, enfim a mulher virtuosa e digna, capaz de sustentar e elevar as tradições da boa família mineira, na excelência de sua fé e de seus sentimentos”.

Nas décadas de 50 e 60, foi construído o prédio para o Seminário São José (atual prédio do Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé) e, para isso, Dom frei Inácio incansavelmente percorreu toda a diocese em busca de recursos financeiros. Em 1960, concluiu-se a construção da atual Catedral Diocesana de Nossa Senhora das Dores (iniciada em 15 de setembro de 1943, por Dom Hugo Bressane de Araújo) e solenemente dedicada pelo núncio apostólico no Brasil, Dom Armando Lombardi, no dia 19 de março. Dom frei Inácio muito contribuiu para o término da obra.

No dia 23 de setembro de 1962, Dom frei Inácio esteve presente à instalação canônica da Província Eclesiástica de Pouso Alegre (MG), à qual Guaxupé passaria a pertencer. De 11 de outubro a 8 de dezembro de 1962, participou da Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, em Roma.

 

Enfermidade e morte

 

Em janeiro de 1963, foi acometido por trombose arterial. Não obstante todos os cuidados médicos, houve necessidade de amputar-lhe a perna direita, em Poços de Caldas (MG). Cercado de padres, Dom frei Inácio faleceu numa quarta- -feira, 29 de maio de 1963, às 13h05min, vítima de trombose cerebral, na Santa Casa de Guaxupé. Estava com 65 anos.

O sepultamento, oficiado pelo metropolita da Arquidiocese de Pouso Alegre, Dom José D’Angelo Neto, assistido por outros cinco bispos, ocorreu na Catedral, com o pranto inconsolável do povo que ficou sem seu bom pastor. A razão de tanta devoção das pessoas por Dom frei Inácio era o que justamente declarou no discurso fúnebre Dom Gerardo Ferreira Reis, natural de Alpinópolis (MG) e bispo de Leopoldina (MG): “Ele, que a todos chamava de ‘santo’ e ‘santa’, deixara em todos aquela inconfundível marca de santidade que o fazia querido e estimado de todos”.

Seu corpo embalsamado foi conduzido pelos cônegos do Cabido Diocesano para a cripta da Catedral. Foi sepultado no lado direito da cripta, no dia 31 de maio, na presença dos bispos mencionados, de diversos sacerdotes, das autoridades civis e dos seminaristas.

Foi verdadeiro apóstolo que, com seu testemunho, soube cativar a simpatia de todos para levá-los a Jesus Cristo. Homem de oração, de penitência e de caridade. Pastor zeloso, fez inúmeras visitas pastorais, escreveu diversas cartas pastorais. O púlpito e o confessionário foram os lugares preferidos do seu pastoreio. Em toda parte onde trabalhou, era sempre afável: como pastor, amava o povo e foi querido pelo povo. Um homem santo! Sua figura patriarcal e simples, cheia de bondade e candura, sempre suave, ficará no coração de todos. Dom frei Inácio foi sempre o bispo que a Diocese de Guaxupé se habituou a conhecer e a amar. Marcou profundamente a história da diocese, durante seu pastoreio de dez anos e oito meses, seja pelos seus gestos simples, seja pelos importantes trabalhos apostólicos desenvolvidos com total dedicação à Santa Igreja. Saiu o semeador, que semeou a Paz e o Bem…

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